Ouvindo os que se foram

aa0da16a8542ebdf3b5b0bc21e22c196Sonne Heljarskinn

Vou lhes dizer como um livro ou um texto é mágico. Com ele nós podemos ouvir as palavras de alguém que já morreu, saber os seus sonhos, desejos, podemos entrar em sua mente e sorver todo o conhecimento que ele pode nos dar com aquele conjunto de palavras escritas.

Antes desta, haviam outras formas de “falar” com os mortos, mas de maneira mais literal. Os antigos escandinavos tinham o costume de se sentar ou deitar nos montes onde eles deixavam a maioria de seus ancestrais repousando. Também völur poderiam se usar de música para viajar através do mundo dos mortos e trazer parte da sabedoria que eles escolhiam compartilhar.

Não apenas isso. Na Völuspa [Profecia da Vidente], Óðinn conversa com uma mulher da qual pode se inferir ser tão antiga quanto os fatos que narra, a qual o deus caolho tirou da tumba para dar-lhe o conhecimento que procurava. Não apenas nessa ocasião ele busca contato com os mortos. De maneira mais permanente, quando utiliza-se de magia para reanimar a cabeça de Mimir, o qual foi decapitado pelos Vanir.

Aqui podemos fazer uma análise interessante, quase correndo o risco de fugirmos de nosso tema. Nos mitos é dito que ao final da guerra entre Ases e Vanes, cada uma das tribos de deuses enviou três dos seus mais fortes e mais poderosos deuses, sendo que é dito que tal proposta foi furada pelos Ases, já que o próprio Óðinn jamais foi para os Vanir, e enquanto seu irmão foi considerado um péssimo líder e Mimir fora morto como retaliação por terem perdido Njörðr, Freyr e Freyja, provavelmente seus três mais poderosos deuses.

Ainda assim, ao receber a cabeça de Mimir de volta, Óðinn utiliza seus poderes mágicos para poder comunicar-se com este, que é para o qual Óðinn dá também um olho em troca de um pouco da sabedoria da fonte de Mímisbrunnr. Tais fatos levantam a questão: seria Mimir mesmo um deus “inútil” ao ponto de o terem matado?

Ou Mimir, como arquétipo da sabedoria, precisava desse contato com os mortos, para poder oferecer mais sabedoria para Óðinn? Os que vieram antes de nós, não importa a forma que nos comuniquemos, são aqueles que nos constróem. O que seria de você sem os pais dos seus pais ensinando a eles a língua que falavam? E os pais dos pais deles? Até tudo isso chegar em você? Ou então, o que seria da técnica sem o trabalho deles? O elo entre o homem que lascava pedras, e o que digita no computador? Ou o que seria da ciência sem os homens que estudaram antes de Darwin? E de nós sem ele?

Tão variados quanto as formas de obter conhecimentos dos mortos são os tipos desses mesmos conhecimentos. Mas a pessoa sábia é aquela que sabe ouvir antes de falar, que lê, que escuta, que observa, e que aprende daqueles que vieram antes de si. Não à toa os escandinavos tinham essa necessidate de conectar-se aos seus mortos: eles eram alguns dos “livros” que esses povos tribais liam para obter conhecimento.

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Bom-senso: a maior virtude

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Bom-senso é o que usamos para, em vez de atravessar um lago com um cavalo, usar um barco, preferencialmente. Saber discernir o que é certo para o momento em que agirmos ou falarmos.

Sonne Heljarskinn

São tempos loucos, pessoal. Tempos muito loucos. Na verdade, eu não sei se nós, seres humanos, possuímos memória de alguma forma de paz verdadeira, parece que estamos sempre prontos para antes nos matar mutuamente que nos olharmos com qualquer tom de respeito, como faríamos com qualquer desconhecido que vemos em uma estrada, numa floresta que liga o gelo e as florestas.

Esse tipo de euforia coletiva, que toma conta da maioria das pessoas, aparentemente, faz com que mesmo vaguear pela internet se torne algo estranho, em alguns momentos. Em determinados locais as pessoas parecem se reunir, na internet, para destilar todo o sentimento mais repugnante que conseguirem extrair de seu coração. E, quando esse tipo de pessoas se junta na vida offline, vemos, muitas vezes, dando apenas continuidade a seus atos irracionais e exibindo uma desumanidade assustadora.

Tudo isso me faz olhar para o fundo de mim, e pensar: a maior virtude que a Ásatrú me trouxe foi refletir sobre o “bom-senso”. Tal expressão parece simplesmente esquecida pelo grande conjunto dos falantes. Foi mesmo esquecida pelos compiladores tardios que encontraram as supostas “nove nobre virtudes vikings” no século XX, apesar de claramente mencionada. E eu, como estudante de letras e linguística, não poderia deixar de observar que mesmo o seu significado parece simplesmente desconhecido da maioria das pessoas em nosso país: é quase como que uma expressão arcaica, que, por desuso, perdeu seu valor através da história do nosso idioma. O grande desafio de nossa era pós-moderna é ser como uma pena caindo ao chão, não importa a força do vento que venha, sem deixar se contaminar pela euforia hipnótica da massa.

Assim, lemos na décima estrofe do Hávámál: Byrði betri / berrat maðr brautu at / en sé manvit mikit / auði betra / þykkir þat í ókunnum stað / slíkt er válaðs vera (“Melhor fardo homem nenhum carrega no caminho do que muito bom senso; melhor do que riqueza isto lhe parece em um lugar que lhe é estranho, tal é o modo de ser do empobrecido”). Tais palavras nos evidenciam a importância do comedimento no uso de nossas opiniões, e no respeito ao outro, quando nos pronunciamos e agimos. Ter bom-senso não significa ser neutro sempre e não demonstrar suas opiniões. Significa ouvir o que o outro tem a dizer, tentar compreendê-lo, esforçar-se por encontrar a verdade nas palavras daquele que nos fala antes de disparar o que “achamos” do discurso dele ou dela. Além disso: quando falar, manter o respeito, mesmo que tal barreira tenha sido rompida. Pode um médico contaminado tratar um doente?

A falta de bom-senso nos faz cometer os erros mais absurdos, sem sequer percebermos. Por exemplo: em nossa sociedade se vulgarizou a ideia de que o  estupro não é algo ruim, que as mulheres deveriam se sentir felizes pois alguém está disposto a tudo por um pouco de prazer, tal como um animal desembestado. Mesmo quando são trinta deles. Mas, se alguém falar em roubo, a única solução é a morte: afinal, cometeu crime, privou alguém da liberdade de usufruir de seus bens, e merece punição. Criamos um mundo que é cada vez mais estranho, em que estamos cada vez mais dispostos a proteger alguns direitos aparentemente inquestionáveis sobre objetos inanimados frutos da técnica, mesmo que com isso outras pessoas não tenham acesso a esse mesmo direito, inclusive a liberdade de escolha de fazer ou deixar de fazer algo. É um roubo de autonomia e liberdade.

E, sem o bom-senso somos incapazes de refletir sobre tais contradições. Descartes, o filósofo do bom-senso nos diz: “bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm”. Significa que quando não temos respeito pelo outro sempre tomamos nossos atos como justificáveis e todo o tipo de postura absurda se torna correta. Há até aí um dito economista que angaria muitos fãs levando um título ridículo de quem se orgulha em proferir discursos extremos e enraivados, servindo como catarse coletiva para as náuseas intelectuais e espirituais de uma parte da sociedade. E chamaria isso de bom-senso, se fosse questionado sobre o assunto.

Longe de esgotar o tema, essa pequena reflexão para nós, heathens, pagãos, fica em aberto, devendo ser respondida por cada um. Essa é a lição que Óðinn, nove dias e nove noites pendurado, tem para nos dar: apenas pelo sacrifício e autodescobrimento (ou seja, a reflexão) teremos respostas satisfatórias – ao menos para cada um de nós.

Desta forma, podemos chamar uma postura que desrespeite o outro de sensata? Devemos mantê-la? O que é e qual o limite da “liberdade de expressão”? Nossas ações possuem consequências, e não adianta plantar ervas daninhas e venenosas se queremos colher frutos saborosos para sobreviver. Isso é a teia do wyrd. Nossos atos estão a cada momento dando novos contornos ao nosso “destino”, de forma que ele não é nunca imutável, mas sempre consequência direta do que construímos. Se queremos um presente melhor, precisamos agir diferente do que agimos no passado. Simples assim, ao menos no discurso, pois são os atos que nos importam.

Então, que o bom-senso possa nos guiar em nossas decisões, nestes tempos em que soluções coléricas e doentias são vendidas como salvação. Que sejamos capazes de aceitar aquilo que na religião não nos torne fundamentalistas, e na sociedade, meros zumbis. Que em nossas vidas pessoais possamos refletir virtude, honra, sabedoria e justiça. São valores muito esquecidos: e sobre os quais repousa a própria dignidade da existência humana. E sem dignidade, podemos estar certos, nenhum escandinavo gostaria de ter vivido na época em que o paganismo, a religião natural, era praticada nas terras do Norte Europeu.